Banco de Edir Macedo investe R$ 271 milhões em papéis podres

Banco de Edir Macedo aplicou R$ 271 milhões em títulos sem valor, semelhante ao caso Master

O Digimais, instituição financeira pertencente ao bispo Edir Macedo, aplicou a quantia de R$ 271,4 milhões em chamados papéis podres originários do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses ativos perderam totalmente sua liquidez econômica ao longo dos anos, retendo hoje unicamente valor histórico. Em seu pico, tais investimentos chegaram a compor 82% do patrimônio líquido da instituição.

Paralelos com escândalo financeiro recente

A engenharia financeira adotada apresenta forte semelhança com operações identificadas no âmbito do Banco Master, sob comando de Daniel Vorcaro. Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) repassados à CPI do Crime Organizado apontam que o Digimais figurou, até janeiro, como o único cotista do fundo Betel, veículo financeiro integralmente abastecido por essas cártulas do Besc. O modus operandi é investigado por inflar artificialmente o balanço das instituições.

As cártulas em questão correspondem a certificados físicos de ações do Besc emitidos antes da aquisição da instituição pelo Banco Brasil em 2008. Como os acionistas originais não precisaram entregar os papéis físicos ao receberem os novos ativos escriturais, as cártulas continuaram circulando no mercado, sendo redirecionadas para transações de natureza fraudulenta. O Tesouro Nacional reforça que os documentos não possuem mais validade financeira.

Gestão de fundos e divergências cadastrais

Constituído em abril de 2025, o fundo Betel adotou essa denominação após o Digimais adquirir a totalidade de suas cotas meses depois. Os registros contábeis indicam a presença dos títulos do Besc na carteira do fundo de julho daquele ano até agosto de 2026, com administração sob responsabilidade da Reag, gestora igualmente associada a fundos do Banco Master.

Em sua defesa, o Digimais alegou ter desinvestido do Betel em outubro de 2025. Contudo, a versão entra em colisão com as informações oficiais fornecidas pela CVM ao Senado Federal, sem que a instituição tenha detalhado valores referentes a uma possível venda das cotas. A gestora Reag optou por não se manifestar sobre as operações.

Investigações da Polícia Federal e rombo financeiro

Atualmente, o Digimais é alvo de inquérito conduzido pela Polícia Federal por suspeitas de manipulação de balanços, inserção de dados falsos em relatórios contábeis, gestão fraudulenta e concessão de crédito vedada por lei. A repercussão dos problemas veio a público junto ao anúncio de um prejuízo semestral de R$ 581,4 milhões.

As autoridades também scrutinizam a aquisição de precatórios e outras manobras voltadas a inflar o patrimônio e turbinar a capacidade de captação de recursos no mercado. Embora métodos análogos aos do caso Master já estivessem no radar da PF, a utilização das cártulas do Besc representa uma vertente inédita nas apurações que a CVM conduz desde 2022 sobre fundos geridos pela Reag.