Amazônia vira principal rota do tráfico de cocaína para a Europa

Amazônia vira rota de cocaína para a Europa

A região amazônica assumiu um papel central nas rotas internacionais do narcotráfico com foco no mercado europeu, conforme aponta um levantamento inédito divulgado nesta quinta-feira, 10, pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC).

Apreensão recorde e novos portos

Um exemplo marcante dessa nova dinâmica ocorreu em março de 2025, quando a polícia de Portugal interceptou 6,6 toneladas de entorpecentes puros no arquipélago dos Açores. A carga bilionária, estimada em mais de R$ 2 bilhões, havia partido do porto de Macapá, no Amapá.

O endurecimento da fiscalização em portos históricos de escoamento, a exemplo de Santos, em São Paulo, e Vila do Conde, no Pará, forçou os cartéis a migrarem para terminais com menor vigilância. Nesse cenário, o porto de Santana (AP) destacou-se como um novo corredor logístico para o crime organizado.

Explosão nas apreensões e valorização da droga

Os números consolidados pelo estudo demonstram uma disparada expressiva na interceptação de entorpecentes na região. Entre os anos de 2019 e 2024, as forças estaduais registraram um salto de 574% nas apreensões, superando a marca de 162 toneladas. Simultaneamente, as operações federais cresceram 84%, totalizando 118 toneladas apreendidas.

O levantamento detalha ainda a escalada de preços da substância ao longo da cadeia logística. Um quilo de cocaína adquirido por cerca de US$ 1 mil nas zonas produtoras da Colômbia e do Peru salta para US$ 3,5 mil ao chegar a Manaus. O valor sobe para US$ 5 mil quando o entorpecente alcança o litoral do Brasil, atingindo impressionantes 50 mil euros no mercado atacadista europeu.

Expansão do Comando Vermelho e o narcogarimpo

A pesquisa vincula diretamente o crescimento dessas rotas ilícitas ao avanço territorial do Comando Vermelho na bacia amazônica. A facção estabeleceu um modelo que concede autonomia operacional a quadrilhas locais em troca de fidelidade e do controle sobre os caminhos do narcotráfico, tendo a capital amazonense como um polo nevrálgico de distribuição.

Outro ponto crítico abordado no documento é a consolidação do chamado narcogarimpo. A infraestrutura montada para a extração ilegal de minérios — que inclui pistas de pouso clandestinas e rotas fluviais — passou a ser aproveitada para o escoamento de drogas. Além disso, falhas na fiscalização do mercado aurífero facilitam a lavagem de capitais e o uso do ouro como moeda de troca em transações internacionais.