É corrupto, mas é o meu corrupto: a lógica da política

Hélio Schwartsman

A máxima “é corrupto, mas é o meu corrupto” sintetiza com precisão o nível de polarização e a relativização ética que frequentemente dominam o cenário político nacional, onde os desvios de conduta de aliados costumam ser tolerados ou ignorados pelos eleitores.

A polarização e a flexibilização da moralidade

Quando a disputa pelo poder se sobrepõe aos valores republicanos, a figura do adversário passa a ser vista como uma ameaça existencial maior do que a própria corrupção praticada pelo grupo político de preferência.

O viés de confirmação nas urnas

Esse comportamento eleitoral é alimentado pelo viés de confirmação, mecanismo psicológico que leva o cidadão a aceitar apenas as informações que validam suas crenças pré-existentes, blindando seu candidato de críticas legítimas.

A consequência direta dessa dinâmica é a perpetuação de práticas ilícitas sob o manto da lealdade partidária ou ideológica, enfraquecendo as instituições de controle e a cobrança por transparência na gestão pública.

O combate aos desvios de conduta perde eficácia quando a sociedade passa a julgar os atos de improbidade com base em quem os cometeu, em vez de avaliar a gravidade da infração em si.

Em última análise, superar esse estágio exige um amadurecimento cívico capaz de colocar a probidade administrativa acima das preferências político-partidárias, restabelecendo critérios éticos universais para toda a classe dirigente.