Brasileiro cruza Atlântico a remo sozinho e repete Amyr Klink

Brasileiro cruza o Atlântico a remo sozinho e repete rota de Amyr Klink

Depois de 136 dias solitários navegando pelo Oceano Atlântico Sul, o paulistano Raphael Garcia atracou na Bahia Marina, em Salvador, a bordo da embarcação Sater. Sua partida ocorreu em 8 de abril, partindo de Lüderitz, na Namíbia — exatamente o mesmo ponto de partida escolhido por Amyr Klink em 1984 para a célebre travessia imortalizada no livro Cem Dias entre Céu e Mar. No píer da chegada, o próprio Klink o aguardava para cumprimentá-lo.

Quase tragédia evitada pelo GPS

Durante a longa jornada, a rotina de Garcia era rigorosa. Após remar na primeira parte do dia, ele checava o GPS, almoçava por meia hora e dormia por sessenta minutos. Em uma dessas ocasiões, antes de deitar, resolveu olhar o aparelho sem motivo aparente. Um enorme navio seguia exatamente na mesma rota, a cerca de 4 metros do seu barco a remo. Embarcações comerciais daquele porte possuem aproximadamente 50 metros de largura e são incapazes de avistar uma pequena embarcação a olho nu. Garcia prontamente telefonou para a tripulação, que executou um desvio de última hora. “Se eu tivesse ido dormir diretamente, que era o que eu fazia antes, provavelmente não estaria aqui”, reflete. O aventureiro, que não segue nenhuma religião, define o episódio como uma “inspiração divina”.

Preparação independente e o encontro com a obra de Klink

O projeto nasceu em 2022, quando Garcia encontrou a obra de Klink em um sebo durante uma passagem por Foz do Iguaçu. Aos 30 anos, ele desconhecia a possibilidade de cruzar um oceano a remo e, ao não encontrar registros de quem tivesse repetido a rota da Namíbia até a Bahia, decidiu aceitar o desafio. Financiando tudo com recursos próprios e abdicando de patrocinadores, ele evitou a imprensa durante os quatro anos de preparação. Para ele, o sucesso de uma empreitada desse porte depende estritamente do planejamento em terra firme e da capacidade de contornar problemas imprevistos.

Como não sabia remar inicialmente, comprou um barco costeiro, realizou cursos de vela e fez expedições em mar aberto. O desenho da embarcação definitiva começou a ser traçado em 2023 com um arquiteto naval britânico. No fim desse mesmo ano, conversou por telefone com Amyr Klink, que lhe deu conselhos cruciais, como a instalação de uma borda de madeira ao redor do barco para facilitar a movimentação a bordo.

Burocracia na Namíbia e desafios das tempestades

A largada em Lüderitz, cidade portuária no deserto namibiano com menos de 20 mil habitantes, enfrentou um mês de atraso devido à burocracia local. Alfândega e imigração não sabiam como classificar uma embarcação sem motor ou velas. Quando finalmente obteve a autorização, partiu no mesmo dia. O plano inicial previa 105 dias no mar, mas o tempo se estendeu para 136 dias em razão das fortes tempestades na saída da Corrente de Benguela. Nesses períodos de mau tempo, Garcia ficava confinado na cabine por até uma semana, dedicando-se à leitura de obras como Cem Anos de Solidão e Kon-Tiki.

Apesar de esperar pouca vida marinha, o navegador teve encontros próximos com baleias e tubarões que inspecionavam o barco. Parte dos registros em vídeo, contudo, perdeu-se após a queda de sua câmera no mar. Com o fim da expedição, Garcia planeja escrever um livro sobre a experiência e descarta novos desafios que sejam menores do que este, pois precisa de grandes motivações para se manter satisfeito.