Ex-chefe do BC recebeu R$ 3,8 milhões de banqueiro investigado pela PF

R$ 3,8 milhões: ex-chefe do BC recebeu quantia de Vorcaro por projeto social

Investigações da Polícia Federal revelam que o ex-chefe de supervisão do Banco Central, Belline Santana, recebeu a quantia de R$ 3,8 milhões entre outubro de 2023 e dezembro de 2025. Os repasses financeiros estão atrelados a uma iniciativa de capacitação voltada para jovens de periferias, batizada de Jovens Potentes e financiada por empresas do banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

Detalhes do depoimento e articulação do projeto

Os dados sobre os repasses constam no depoimento prestado por Leonardo Augusto Furtado Palhares, responsável pela consultoria jurídica que intermediou o projeto. Às autoridades, o advogado relatou que passou a colaborar com Vorcaro e com seu cunhado, Fabiano Zettel, no final de 2023. Foi nessa época que surgiu a proposta de inserir jovens periféricos no mercado de trabalho.

Apresentado a Belline por intermédio de Zettel, Palhares afirmou que não participou da definição dos montantes financeiros e que coube a Zettel assumir o financiamento integral da iniciativa social.

Esquema de repasses por meio de consultoria

De acordo com o inquérito, a primeira etapa do projeto custou R$ 2 milhões, divididos em quatro parcelas de R$ 500 mil. Inicialmente, o dinheiro saiu da Moriah Asset, de propriedade de Zettel, e depois passou a ser pago pela Super Empreendimentos e Participações.

A Varajo Consultoria, pertencente a Palhares, recebia os recursos e repassava os valores diretamente a Belline por meio de TEDs e Pix. Na segunda fase, a estimativa é de que os pagamentos tenham alcançado cerca de R$ 700 mil a R$ 800 mil, em parcelas mensais de R$ 100 mil. Questionado pela polícia sobre o uso da consultoria como intermediária, o depoente pontuou que havia contrato, emissão de notas fiscais e que o ex-servidor declarava os ganhos no Imposto de Renda.

Preocupação para evitar vínculo com o Banco Master

Registros de conversas divulgados pela imprensa apontam que Zettel e Vorcaro demonstraram receio de que os pagamentos tivessem origem direta no Banco Master. Em diálogos de dezembro de 2023, o banqueiro teria enfatizado que a instituição financeira não deveria aparecer na operação, nem mesmo de forma indireta. Em seu depoimento, no entanto, Palhares garantiu que nunca tratou da estrutura de pagamentos com Vorcaro e negou qualquer tentativa de ocultação.

Pedido de afastamento e crise de liquidez

O advogado também relatou que Belline pediu para afastar a Câmara Brasileira da Economia Digital — então presidida por Palhares — da segunda fase do projeto. O argumento foi evitar conflito de interesses, já que a entidade possuía associados fiscalizados pelo próprio Banco Central.

Apesar de saber que o Banco Master enfrentava dificuldades para captar recursos e que os prazos de pagamento começavam a atrasar, Palhares afirmou não ter achado estranho que um servidor do BC recebesse recursos de um empresário em crise, classificando o contrato como voltado estritamente para a finalidade social.

A defesa de Belline nega veementemente o recebimento de vantagens indevidas, assegura que ele jamais interferiu na fiscalização do Banco Master e sustenta que sua atuação sempre respeitou os limites legais do cargo.