Crise na França: Escolas públicas perdem alunos ricos

Em crise por gastos com aposentadorias e austeridade, escolas públicas da França perdem alunos ricos

O sistema educacional público da França enfrenta uma grave crise financeira e estrutural, marcada por greves frequentes, deterioração das instalações e queda nos índices de desempenho. Essa situação tem feito com que um número crescente de famílias de maior renda abandone o ensino público em direção às instituições privadas.

O impacto das greves e a deterioração do ensino

A insatisfação com a falta de professores e a precariedade dos edifícios escolares motivou protestos recentes no país. A crise afeta diretamente o cotidiano das famílias, como relatado por mães que precisaram transferir os filhos para a rede privada após enfrentarem paralisações constantes e avisos de última hora.

Dados do programa Pisa mostram que os níveis de proficiência em matemática e leitura dos estudantes franceses de 15 anos caíram drasticamente desde 2003, atingindo mínimas históricas e ficando abaixo da média da OCDE. Além disso, as escolas secundárias públicas não conseguiram garantir docentes para quase 10% das horas de aula no ano letivo de 2024/2025, enquanto até 20% dos prédios apresentam condições significativamente deterioradas, conforme dados do Banque des Territoires.

O peso dos gastos com aposentadorias

Especialistas apontam que a incapacidade do governo em solucionar esses problemas decorre do avanço dos gastos públicos com inativos, que consomem recursos vitais de outras áreas. O orçamento educacional para 2027 é de 64 bilhões de euros, mas as aposentadorias dos professores adicionam 28% a esse custo.

As despesas totais do Estado com inativos devem alcançar 436 bilhões de euros, o equivalente a 14% do PIB. Economistas avaliam que esses pagamentos “canibalizam” o orçamento da educação, resultando em salários iniciais inferiores à média internacional para os professores e alimentando a insatisfação da categoria.

A migração para as escolas particulares

Diante desse cenário, as instituições privadas — especialmente o modelo “sob contrato” com o Estado — têm atraído a classe alta. Administradas majoritariamente por instituições católicas, essas escolas possuem maior autonomia na gestão e contam com professores remunerados pelo governo, o que reduz os impactos de greves.

Atualmente, mais de 2 milhões de crianças frequentam a rede privada sob contrato na França. O perfil socioeconômico mudou drasticamente: alunos de famílias “muito favorecidas” passaram de 26,4% em 2000 para 40,2% em 2021.

A perda de prestígio do ensino público rompe com o tradicional ideal republicano de igualdade. Enquanto redes privadas em cidades como Nantes registram alta demanda, pais reconhecem que essas mensalidades exigem sacrifícios financeiros, aprofundando a divisão social no acesso à educação de qualidade.