China produz mais tambaqui que o Brasil? Entenda o cenário

Ronaldo Lemos

O cultivo do tambaqui, uma das espécies mais emblemáticas da bacia amazônica, colocou a aquicultura brasileira diante de uma constatação surpreendente. Ao longo das últimas décadas, a China incorporou a espécie às suas criações industriais e alcançou patamares produtivos que superam os volumes colhidos no próprio habitat de origem do peixe.

Como a China dominou a produção de uma espécie amazônica

Introduzido em território chinês na década de 1980 para fins de pesquisa e adaptação, o tambaqui encontrou no país asiático um ambiente favorável ao seu desenvolvimento em larga escala. Com investimentos pesados em biotecnologia, nutrição animal e automação de viveiros, produtores locais conseguiram viabilizar taxas expressivas de crescimento da espécie e de híbridos da mesma família.

Diferente da estrutura predominante no mercado sul-americano, o modelo chinês opera com foco em altíssima densidade de biomassa e forte incentivo governamental. O resultado dessa combinação é uma oferta que abastece com folga a demanda do mercado interno daquele país, alcançando centenas de milhares de toneladas anuais.

O cenário da piscicultura no território brasileiro

No Brasil, o tambaqui figura como a principal espécie nativa criada em cativeiro, com polos de destaque em estados das regiões Norte e Nordeste, como Rondônia e Amazonas. No entanto, a atividade ainda enfrenta entraves estruturais importantes, como o custo elevado de insumos e a fragmentação das cadeias de abate e distribuição.

Gargalos logísticos e desafios sanitários

Embora a tilápia domine o volume total da piscicultura nacional, o avanço das espécies nativas encontra barreiras para competir no cenário internacional. Questões ligadas à obtenção de certificações sanitárias internacionais, licenciamento ambiental desuniforme entre os estados e carência de logística de congelamento dificultam o envio de excedentes para outros mercados consumidores.

A discrepância na produção entre os dois países evidencia a necessidade de inovação contínua e investimentos na cadeia produtiva brasileira. Para transformar seu patrimônio de biodiversidade em vantagem econômica global, o setor nacional precisará fortalecer a escala industrial e os canais de exportação de suas espécies mais tradicionais.