Ray Dalio alerta para fuga de China e Japão em títulos dos EUA

China e Japão podem reduzir posições em títulos do Tesouro dos EUA, diz investidor bilionário

O mercado financeiro internacional enfrenta um momento de forte apreensão com a possibilidade de Pequim e Tóquio reduzirem drasticamente suas posições em títulos do Tesouro americano, conhecidos como Treasuries. O alerta foi emitido pelo renomado investidor bilionário Ray Dalio, que destacou a vulnerabilidade da economia dos Estados Unidos diante da retração de seus principais credores globais.

A dependência do capital estrangeiro na dívida americana

Durante entrevista em Singapura, o fundador da Bridgewater Associates enfatizou que os EUA dependem de recursos internacionais para financiar aproximadamente um terço de sua dívida pública. Essa fatia expressiva é sustentada majoritariamente por Japão e China, cujos aportes agora enfrentam riscos geopolíticos e econômicos significativos.

Segundo o especialista, a relação entre devedor e credor torna-se complexa quando há atritos geopolíticos envolvidos. No caso chinês, o desinteresse em acumular mais dívidas dos EUA reflete tensões estratégicas. Já em relação ao território japonês, o país asiático emprestou volumes elevados de recursos que agora necessita resgatar para atender a demandas internas.

Desafios para o governo dos EUA e reação do mercado

As advertências de Dalio surgem logo após o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentar acalmar os ânimos ao prometer que o crescimento econômico e o corte de gastos públicos vão reverter a curva de endividamento do país em breve. Contudo, analistas avaliam que o governo americano ainda enfrenta um longo trajeto para restabelecer a confiança total dos investidores institucionais.

O fundador da Bridgewater reiterou a projeção de que os EUA podem enfrentar uma severa crise fiscal dentro de três anos, visto que tomadores de crédito já sofrem com o aperto monetário. Como reflexo desse cenário de incertezas, os rendimentos dos Treasuries de dez anos operam próximos de 5,3%, patamares não vistos desde 2002.

Movoluções nas reservas de China e Japão

O movimento de desinvestimento já dá sinais práticos no cenário global. Em julho, o governo japonês registrou uma retração de US$ 12,8 bilhões em suas reservas de títulos americanos, totalizando US$ 1,1 trilhão. A redução ocorreu em meio a intervenções cambiais de Tóquio para defender o iene, exigindo a venda de ativos estrangeiros.

Por sua vez, a China continental reduziu seu estoque oficial de Treasuries de um pico de US$ 1,3 trilhão alcançado em 2013 para cerca de US$ 618 bilhões em julho. Especialistas apontam que o volume real pode ser ainda menor ou oculto por meio de contas de custódia em terceiros países, como a Bélgica.

Impacto global e a bolha tecnológica

Além da dívida soberana, Dalio chamou a atenção para o esgotamento de recursos em setores de alta tecnologia que investem pesadamente em inteligência artificial. Com o encarecimento do crédito e a transição de captações via ações para empréstimos bancários, grandes empresas do setor começam a enfrentar barreiras financeiras.

O cenário internacional de dívida soberana também sofre pressões em outras praças, a exemplo da França, que atingiu limites críticos de endividamento no mercado europeu. Para o investidor, a conjuntura de juros elevados e tensões geopolíticas forma um ambiente desafiador para a estabilidade financeira global nos próximos anos.