China desafia regras marítimas globais e pressiona Taiwan

China amplia pressão marítima sobre Taiwan e desafia regras no mar

A crescente pressão marítima exercida pela China sobre Taiwan vai muito além de uma simples demonstração de força militar, funcionando como uma estratégia calculada para redefinir as regras de controle nas águas da região, conforme alertaram autoridades diplomáticas internacionais reunidas em Taipé.

A estratégia de fiscalização e o uso de embarcações comerciais

Durante o segundo Fórum Internacional Taiwan Resiliente para a Democracia Sustentável, a representante do Reino Unido em Taipé, Ruth Bradley-Jones, destacou que a atividade naval chinesa nos últimos meses foi até três vezes maior do que os registros de 2025.

Segundo a diplomata britânica, o ponto mais crítico dessa ofensiva é a transição para missões chamadas por Pequim de fiscalização, nas quais o governo chinês utiliza barcos civis e comerciais como multiplicadores de força militar. Essa tática busca alterar a narrativa sobre quem realmente comanda as rotas marítimas na Primeira Cadeia de Ilhas, que abrange desde o Japão até as Filipinas.

O posicionamento reforça declarações anteriores de Joseph Wu, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional de Taiwan, que apontou o disfarce de operações policiais como um desafio direto não apenas para os taiwaneses, mas também para governos vizinhos como Tóquio e Manila.

Vulnerabilidade energética e o debate sobre o gás natural

Outro aspecto central debatido no evento envolve a segurança energética de Taiwan, território que depende fortemente da importação de petróleo e gás natural liquefeito (GNL). O chefe do Escritório Europeu de Economia e Comércio em Taiwan, Lutz Guellner, alertou sobre a erosão das normas internacionais e cobrou medidas urgentes para proteger infraestruturas críticas, como os cabos submarinos.

Guellner defendeu maior eficiência energética e investimentos em fontes renováveis, como energia solar e eólica offshore, diante do risco de Pequim transformar exercícios navais em um bloqueio prolongado.

Por outro lado, o diretor do Instituto Americano em Taiwan, Raymond Greene, minimizou a leitura de que a ilha estaria totalmente vulnerável a um cerco. Greene pontuou que o governo taiwanês tem feito avanços expressivos na resiliência energética e na preparação contra crises.

O diplomata americano argumentou que estimativas rígidas baseadas apenas nas reservas de GNL, calculadas entre 11 e 14 dias, ignoram alternativas como planos de racionamento, uso de carvão, expansão de energias limpas e fontes domésticas. Para ele, o impacto econômico global de um bloqueio no Estreito de Taiwan afetaria o tráfego marítimo mundial de forma tão severa que a comunidade internacional sentiria os efeitos muito antes de qualquer colapso interno na ilha.

Integração governamental e o peso do setor privado

Para fortalecer a defesa contra essas investidas, Bradley-Jones defendeu a necessidade de uma cooperação mais estreita entre diferentes órgãos estatais, corporações privadas e o setor tecnológico. A diplomata apontou que divisões rígidas entre agências governamentais, como a Marinha e a Guarda Costeira, geram brechas que podem ser aproveitadas por potências rivais.

O setor de seguros foi apontado como um fator determinante na estabilidade global. Usando como exemplo a crise no Estreito de Ormuz, onde o encarecimento de apólices paralisou o tráfego de navios, a representante britânica lembrou que o mercado segurador tem poder decisivo sobre a circulação de embarcações em zonas de conflito.

Apesar dos múltiplos desafios geopolíticos e estruturais, autoridades estrangeiras no evento expressaram otimismo com a velocidade e a eficácia com que Taiwan tem aprimorado seus mecanismos de defesa e resposta rápida.