O estado do Rio de Janeiro acumula um registro alarmante de 537 itens sacros desaparecidos de templos religiosos, conforme dados oficiais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Com esse volume, o território fluminense ocupa a segunda colocação no ranking nacional de furtos de patrimônio histórico, ficando atrás apenas de Minas Gerais.
Panorama nacional do patrimônio sacpicker
Em todo o país, o Banco de Bens Culturais Procurados contabiliza 1.749 objetos culturais surrupiados, sendo a arte sacra a categoria mais afetada pelas ações criminosas. Entre os artefatos que constam nas listas de busca estão esculturas de anjos, crucifixos de madeira laqueada datados do século 19, além de arandelas, castiçais dourados e tocheiros fabricados no século 18.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, erguida em 1755 e com as portas fechadas ao público há sete anos, que possui ao menos 35 objetos religiosos incluídos na relação de itens procurados pelas autoridades.
Resgate internacional em Portugal
Uma operação conjunta permitiu que a polícia localizasse em Lisboa, capital portuguesa, quatro tocheiros monumentais e uma cruz de prata que haviam sido subtraídos do altar-mor da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, localizada no centro da capital fluminense. As esculturas foram criadas no início do século 19 pelo renomado mestre José de Oliveira Coutinho, considerado um dos maiores ourives e prateiros da história brasileira.
O caminho até o tesouro começou por meio de uma denúncia anônima registrada na plataforma Fala.BR, vinculada à Controladoria-Geral da União. A Polícia Federal acionou a Interpol, que repassou as informações para a polícia portuguesa. Os objetos valiosos foram encontrados em um estabelecimento comercial que funcionava simultaneamente como antiquário e casa de leilões.
De acordo com o delegado Marcos Nizio, da Superintendência da PF em Brasília, a Polícia Judiciária de Lisboa apreendeu os artefatos e constatou que o comerciante não agiu com má-fé, já que desconhecia a procedência ilícita das obras.
Histórico de negligência e novas medidas de segurança
Claudio André de Castro, provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, aponta que o furto no altar-mor ocorreu em um intervalo amplo, entre 1947 e meados da década de 1980, e reconhece que houve falta de zelo na guarda dos objetos durante o século passado. O templo é tombado pelo patrimônio histórico desde 1938 e tem sua comercialização vetada por lei.
O administrador explica que a fiscalização sobre o acervo tornou-se mais rígida a partir dos anos 1980, período em que o Iphan intensificou os inventários anuais. Atualmente, para evitar novas perdas, os artefatos de maior valor financeiro e histórico são mantidos sob forte segurança em uma Casa Forte interna, sendo retirados do cofre apenas para a realização de celebrações litúrgicas. Embora esta seja a primeira vez que obras da paróquia são recuperadas no exterior, a instituição ainda busca dezenas de peças que continuam desaparecidas.
















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