O inverno rigoroso no Hemisfério Sul tem causado transtornos severos nas passagens terrestres da cordilheira dos Andes, bloqueando rotas vitais que conectam o Chile e a Argentina. Assim como ocorre anualmente no Hemisfério Norte, os meses mais frios na América do Sul — especialmente agosto — trazem tempestades de neve capazes de paralisar o transporte rodoviário internacional por dias consecutivos.
Dinâmica atmosférica e o rigor do inverno andino
As precipitações extremas na região ocorrem devido à combinação entre as baixas temperaturas sazonais e o fluxo contínuo de umidade vindo do Oceano Pacífico Sul. Embora o ar frio retenha menos vapor d’água, a circulação persistente de ventos de oeste intensifica-se no inverno, compensando essa limitação e impulsionando grandes massas de umidade contra a cordilheira.
Quando essas correntes atingem a face oeste das montanhas, conhecida como barlavento, o ar sofre resfriamento acentuado, transformando o vapor em neve pesada. Em episódios de circulação extrema, o fluxo consegue transpor as cumeeiras e descarregar neve inclusive na vertente oposta, criando um cenário de bloqueio total nas fronteiras.
Impactos na Rota dos Libertadores e o drama dos caminhoneiros
Entre os dias 2 e 10 de agosto de 2026, o avanço de Anticiclones Polares Móveis associados a ciclones extratropicais provocou um acúmulo histórico de neve na rodovia CH-60, famosa como a Rota dos Libertadores. O trecho conhecido como Los Caracoles, que liga Santiago a Mendoza, registrou camadas de neve superiores a 6 metros em pontos críticos.
Esse volume colossal igualou marcas históricas registradas há 40 e 100 anos. O bloqueio na fronteira deixou cerca de 2 mil caminhões retidos por mais de dez dias, submetendo os motoristas a temperaturas extremas de até -7°C e condições precárias de sobrevivência enquanto aguardavam a desobstrução das pistas.
Contexto climático e ocorrências anteriores
Especulações iniciais tentaram associar o fenômeno à transição para o El Niño, mas análises indicam que as temperaturas da superfície do mar no Pacífico subiram apenas 0,5°C, descartando o aquecimento oceânico como principal impulsionador das tempestades severas deste ano.
O isolamento de rotas andinas não é inédito na região. Em agosto de 2023, a mesma passagem de Cristo Redentor ficou fechada por duas semanas com 5 metros de neve acumulada, afetando fortemente o escoamento de cargas para o Brasil. Já em julho de 2025, a rodovia CH-27, próxima ao deserto do Atacama, também sofreu interrupções devido à alta altitude e às nevascas recorrentes.
Com os volumes recordes registrados no inverno de 2026, os eventos extremos na cordilheira continuam a desafiar as autoridades de transporte e a desmistificar projeções anteriores sobre a escassez de neve decorrente de mudanças climáticas nas geleiras andinas.
















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