O icônico vinho alemão de garrafa azul, símbolo de festas da classe média e alta brasileira na década de 1990, desperta forte saudosismo e discussões sobre preferências gustativas. Tecnicamente classificada como Liebfraumilch, essa categoria de bebida quase sumiu das prateleiras dos supermercados e de importadoras tradicionais com o passar do tempo.
Histórico e desaparecimento do rótulo marcante Nos primeiros anos da década de 90, era rotineiro ver a bebida adocicada presente em encontros no interior gaúcho. Naquele período, o item figurava quase como obrigatório em comemorações elitizadas, apesar de ter sofrido diversas críticas e adquirido certa rejeição com os anos.
Atualmente, achar uma garrafa autêntica demanda bastante trabalho, sendo mais viável encontrar alternativas de outros locais produtores. Até mesmo uma versão brasileira feita pela Cooperativa Aurora e distribuída pela Campari, que usava uma garrafa marrom para baratear o preço, acabou sendo descontinuada.
Nova fase comercial e estratégia de relançamento Em 2024, a fabricante tradicional foi adquirida pela multinacional Grand Chais de France, a mesma detentora do JP Chenet. A meta atual é focar em consumidores jovens ou nostálgicos, utilizando nomes comerciais como Authentic White em vez de colocar o termo Liebfraumilch em evidência no rótulo.
Enquanto o setor acompanha os resultados dessa manobra corporativa, é válido analisar as transformações nos comportamentos de compra e se os vinhos aclamados hoje também serão encarados com estranheza no futuro.
Avaliação sensorial dos similares atuais Para mapear o espaço que esses rótulos ocupam hoje, três exemplares com características parecidas com o antigo sucesso da Alemanha foram avaliados: o Eugen Müller Riesling Kabinett Forster Mariengarten 2022, o Pé Branco e o Black Tower.
O Eugen Müller chamou atenção pelo caráter petroláceo acentuado, acidez vibrante que equilibra o açúcar e aromas tropicais com toque de limão, sendo considerado o mais complexo e equilibrado da degustação. O Pé Branco surpreendeu positivamente com sua boa acidez que disfarça o açúcar, entregando nuances minerais e tropicais. Por fim, o Black Tower exibiu perfume remetendo a algodão doce e dulçor evidente, entregando um resultado aceitável se servido bem gelado.
Considerações finais sobre o mercado vinícola Independentemente das transformações do paladar e das modas do mercado, o apego emocional em torno dos vinhos adocicados demonstra que o elo entre a memória afetiva e o mundo da enologia continua forte e gerando discussões.

