O olfato aguçado de morcegos frugívoros tem servido de base para o desenvolvimento de novas estratégias voltadas à restauração florestal e à recuperação de ecossistemas degradados.
H2 A superação de mitos e a aproximação com a ciência Longe dos mitos gerados pela literatura gótica desde o século XIX, apenas três das cerca de 1.500 espécies conhecidas de morcegos alimentam-se de sangue, sendo raro o contato com humanos. Esse cenário impulsionou cientistas a investigarem o papel ecológico desses mamíferos voadores na dispersão de sementes.
H3 O uso de compostos sintéticos em experimentos Pesquisadores da Embrapa Florestas e do Instituto Federal do Paraná testaram o uso de óleos essenciais para atrair os animais sem comprometer a disponibilidade de alimento na natureza. “Isso seria ruim em termos ambientais. Porque envolveria uma coleta muito extensa de frutos. Consequentemente, eu estaria retirando alimentos de quem está lá [da fauna] e comprometendo a dispersão de sementes dessas plantas”, explicou Mikich.
H2 Mobilidade e alcance global da técnica Com uma digestão rápida e grande capacidade de deslocamento entre fragmentos de vegetação, os animais conseguem cruzar zonas agrícolas e transportar sementes a longas distâncias. Monitoramentos por radiotelemetria comprovaram que a matriz agrícola não impede a circulação dessas espécies. “Ao longo dessa pesquisa, marcamos mais de 1.800 indivíduos de duas espécies, A. lituratus e C. perspicillata, e monitoramos por radiotelemetria 32 morcegos equipados com transmissores”, disse Bianconi, do IFPR. “Talvez a principal contribuição desse estudo tenha sido demonstrar que, embora a matriz agrícola imponha desafios e riscos aos morcegos, não impede seus deslocamentos entre os fragmentos florestais.”
H3 Limitações e o valor dos serviços ecossistêmicos Apesar do potencial como ferramentas de regeneração, especialistas ressaltam que os animais não substituem a dinâmica natural das matas e podem, inclusive, espalhar espécies vegetais indesejadas. O resgate da importância desses mamíferos também passa por uma mudança cultural em relação à sua imagem histórica. “[Foi apenas] nos últimos dez ou 15 anos que o lado animal da história passou a ser considerado. Você precisa dos animais, tanto dispersores de sementes, quanto polinizadores e outros que fazem defesa biológica natural e decomposição”, disse Marco Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador das interações entre morcegos e plantas.
O avanço nos estudos sobre a fauna silvestre demonstra que a integração entre o comportamento animal e o manejo ambiental pode abrir novos caminhos para a preservação e o repovoamento de áreas naturais afetadas pela ação humana.

